Um jovem de 19 anos, identificado apenas como Luiz, entrou para a história da medicina de Mato Grosso do Sul ao se tornar o primeiro paciente do estado a receber a aplicação da Polilaminina, um medicamento experimental que atua na regeneração de nervos da medula espinhal. O procedimento, autorizado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), foi realizado na manhã desta quarta-feira (21) no Hospital Militar de Campo Grande e representa uma nova esperança no tratamento de lesões graves.
Luiz sofreu um acidente com arma de fogo no final de 2025, que atingiu seu pescoço e causou uma lesão medular grave, deixando-o tetraplégico – sem movimentos dos membros superiores e inferiores. Após não responder satisfatoriamente aos tratamentos convencionais, a família buscou alternativas e encontrou na Polilaminina uma possibilidade.
O advogado do jovem, Gabriel Traven Nascimento, explicou ao Correio do Estado que o processo junto à Anvisa para liberação do uso compassivo (fora de estudos clínicos) de medicamentos experimentais costuma levar cerca de 45 dias, um prazo crítico para lesões medulares. “Quanto mais rápido o paciente tiver acesso ao medicamento, mais chances ele tem de responder ao tratamento com maior eficácia”, disse.
A expectativa era de poucas chances, por ser o primeiro caso no estado. No entanto, em uma semana, a Anvisa deferiu o pedido. Paralelamente, o advogado entrou com um requerimento na Justiça Federal contra a União, que foi atendido logo após a liberação da agência. “Por sorte, nos atenderam bem rápido, o que garantiu que a cirurgia pudesse ser feita”, comemorou Gabriel.
O procedimento, que durou cerca de 40 minutos, foi conduzido pelo neurocirurgião Dr. Wolnei Marques Zeviani. Ele detalhou que a Polilaminina é derivada de uma proteína chamada laminina, que dá sustentação às células. “É como se fosse um andaime para que os neurônios consigam reconstruir seus axônios [prolongamentos que transmitem impulsos nervosos] na região lesada”, explicou.
A aplicação de aproximadamente 1 ml da substância foi feita diretamente na medula espinhal, guiada por uma radioscopia (raio-X em tempo real). O Dr. Zeviani ressaltou que o ideal seria aplicar o fármaco nas primeiras horas ou dias após a lesão, para bloquear o processo inflamatório agudo. “Mas até pacientes em fase mais tardia, de alguns meses, têm tido resultados satisfatórios”, complementou.
A Polilaminina é um desenvolvimento 100% brasileiro, fruto de mais de 20 anos de pesquisa liderados pela professora Tatiana Coelho de Sampaio, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O fármaco é produzido a partir de uma proteína extraída da placenta humana.
Em janeiro, a Anvisa autorizou o início dos estudos clínicos formais (Fase 1) com o medicamento, que serão realizados com cinco voluntários com lesões medulares específicas. O caso de Luiz é um uso compassivo, anterior à conclusão desses estudos.
O paciente deve receber alta nesta quinta-feira (22). Os resultados do tratamento, no entanto, são graduais e de longo prazo, podendo ser observados em um período que varia de 3 meses a 1 ano e meio.
O Dr. Zeviani é cauteloso, mas esperançoso. “A maioria dos pacientes [em avaliação] teve uma melhora funcional promissora, mas nem todos tiveram uma melhora completa”, disse, citando um caso com cerca de 95% de recuperação. A melhora depende da extensão e localização da lesão.
“As melhoras podem variar: desde conseguir sentar sem apoio, recuperar funções urinárias e intestinais, até ganhos motores. Nem sempre significa voltar a andar completamente, mas qualquer ganho representa uma enorme melhora na qualidade de vida”, concluiu o médico.
O caso em Mato Grosso do Sul acende um farol de esperança para milhares de brasileiros que vivem com sequelas de lesões medulares, colocando a ciência nacional na vanguarda da busca por soluções para a regeneração neural.











