Uma onda de comoção, fé e saudade tomou conta de Três Lagoas. A inesperada transferência do salesiano italiano Ir. Armando Catrana, 87 anos, para Campo Grande na última quinta-feira (22), comunicada oficialmente apenas na segunda (26), gerou um movimento popular que pede seu retorno à cidade que ele ajudou a transformar. A comunidade se une em oração, com um terço marcado para esta quinta-feira, 29, às 19h30, no Centro Juvenil Jesus Adolescente, pedindo que ele possa viver seus últimos anos ao lado das pessoas e da obra que construiu com amor.
Nascido em Perugia, Itália, Ir. Armando deixou para trás uma carreira consolidada como bancário e o atletismo para responder a um chamado vocacional. Ingressou na Congregação Salesiana em 15 de agosto de 1962 e, após atuar em oratórios na Itália, chegou ao Brasil em maio de 1968 como missionário. Passou por várias cidades do Centro-Oeste, sempre com o propósito de formar cidadãos.
Foi em abril de 2002, durante uma visita à Vila Piloto em Três Lagoas, que ele identificou uma profunda vulnerabilidade social e, ao mesmo tempo, um potencial imenso. Foi ali que sua missão encontrou raízes definitivas. Com a cessão de uma área de 50 mil m² pela prefeitura em 2003, e com o apoio crucial de amigos italianos (os AmiciArmando), ele liderou a construção do Centro Juvenil Jesus Adolescente, inaugurado em 2004, e do Centro de Formação Profissional, em 2005.
Por mais de duas décadas, o Centro Juvenil tornou-se referência em educação integral, oferecendo desde oficinas profissionalizantes e cursos técnicos até formação humana e espiritual. Mas o maior legado de Ir. Armando foi o vínculo. Ele conhecia cada história, cada família. Chamava a todos de “filho” e sua presença era um farol de acolhimento, independentemente de credo, raça ou condição social.
O impacto de sua obra é intergeracional. “Minha filha foi aluna, hoje meu neto estuda lá”, conta a líder comunitária Margareth Lopes. “O mestre Armando sempre acolheu a todos com o mesmo carinho e amor.”
Para o ex-aluno e agora professor Lelis Guilherme, Ir. Armando é uma inspiração permanente. “Eu cresci, estudei, me formei e sempre tive a imagem do mestre… Deixem ele viver seus últimos dias ao lado das pessoas que ele ama”, implora.
A transferência, segundo a Missão Salesiana, foi motivada por questões de saúde. No entanto, pessoas próximas ao religioso avaliam que os cuidados necessários – para limitações naturais da idade, como lapsos de memória e dificuldade de locomoção – poderiam ser prestados em Três Lagoas, onde ele tem toda uma rede de afeto.
O ex-aluno e voluntário Leandro Dias fez um apelo emocionado: “Eu estou aqui hoje para pedir àqueles que possam ajudar que tragam Armando Catrana de volta para Três Lagoas… Sabemos que ele está com uma idade avançada, mas iremos cuidar dele aqui, onde viveu e trabalhou por muitos anos.”
O movimento, que se espalhou pelas redes sociais, é marcado pela gratidão e não pelo confronto. O Terço pelo Retorno do Amigo Armando Catrana é a materialização desse sentimento: um momento de fé, união e súplica para que o educador possa retornar à sua “verdadeira morada”.
“Ele não construiu apenas prédios, construiu vínculos, famílias e futuros”, resume um ex-aluno. Para Três Lagoas, Ir. Armando Catrana é muito mais que um religioso; é um pai espiritual, um símbolo do amor que transforma e uma história viva que a comunidade não quer ver escrita longe de casa. A esperança é que a força dessa oração e o reconhecimento de uma vida inteira de doação falem mais alto.











