O tetraplégico sul-mato-grossense Luiz Otávio Santos Nunez, de 19 anos, voltou a se mexer 12 dias depois de passar pelo procedimento com a proteína polilaminina, um medicamento brasileiro que está em fase de testes. O jovem foi atingido por um tiro acidental no pescoço em outubro do ano passado, causando uma lesão medular grave que o deixou sem o movimento dos membros inferiores e superiores, condição conhecida como tetraplegia, que historicamente apresenta raros relatos de recuperação parcial dos movimentos.

No fim de janeiro deste ano, após diversos requerimentos feitos à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), a homologação para realizar o procedimento veio por meio da União, uma semana depois da Anvisa e do Ministério da Saúde liberarem o início do estudo clínico de fase um para avaliar a segurança do uso da polilaminina. A cirurgia foi realizada no dia 21 de janeiro, no Hospital Militar de Campo Grande, por volta das 9h30min da manhã, e levou cerca de 40 minutos.
O primeiro “milagre” foi registrado exatamente duas semanas depois do procedimento, quando Luiz conseguiu mexer a mão sem ajuda externa, o que foi considerado uma conquista e tanto para a família e para a medicina brasileira. Nas redes sociais, é possível observar que Luiz consegue até comer um pedaço de bolo sem auxílio e de uma maneira completamente normal. Sua mãe, Viviane Goreti, descreveu o momento de evolução do filho em sua página como uma “felicidade imensa” e destacou que “cada pequeno gesto é uma grande conquista”.
Luiz foi o primeiro paciente a receber o tratamento em Mato Grosso do Sul e um dos 23 no Brasil. A tendência é de que os resultados sejam mais satisfatórios com o passar do tempo, especialmente na janela de três a 18 anos depois da realização da cirurgia.
O médico responsável pelo procedimento do jovem sul-mato-grossense, Wolnei Marques Zeviani, explicou como foi realizada a cirurgia no mês passado. Segundo ele, foi introduzida uma agulha ligada por Raios X em tempo real até a região onde está a lesão medular, onde foi aplicado 1 ml da proteína laminina. Depois da aplicação, o paciente recebeu alta e mantém acompanhamento com fisioterapia. Para o médico, ainda é incerto se Luiz voltará a andar. Para que a chance aumente, é preciso um acompanhamento intensivo, incluindo fisioterapia e outros estímulos, o que deve durar mais algum tempo. Zeviani pontuou que provavelmente Luiz terá um ganho, mas não se sabe se esse ganho será de 100% ou se ele voltará a andar. A expectativa é de uma grande melhora na qualidade de vida, com necessidade de fisioterapia e estímulo elétrico por aproximadamente um ano e meio para que se consiga ver uma resposta de fato com grande melhora funcional.
A polilaminina é um fármaco desenvolvido pela professora Tatiana Coelho de Sampaio em parceria com pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), após 20 anos de pesquisa. Ele é produzido a partir de uma proteína retirada da placenta, a laminina, e tem apresentado resultados satisfatórios em testes com animais e voluntários que sofreram acidentes graves e perderam os movimentos. A Anvisa autorizou o início dos estudos clínicos do antídoto no dia 5 de janeiro, que será realizado em cinco pacientes voluntários, com idades entre 18 e 72 anos, que possuam lesões agudas completas da medula espinhal torácica entre as vértebras T2 e T10.
Recentemente, a ex-ginasta tetraplégica Laís Souza compartilhou em suas redes sociais que conheceu Bruno Drummond de Freitas, o primeiro paciente do mundo a receber o tratamento com a proteína. Em abril de 2018, Bruno sofreu um grave acidente de carro que resultou em fraturas na coluna vertebral, nas alturas de C6 e T8. Na região de C6, a lesão medular foi classificada como completa, estabelecendo o diagnóstico de tetraplegia. Menos de um dia depois do trauma, ele foi submetido ao procedimento cirúrgico e recebeu a aplicação da polilaminina. Três semanas depois, ocorreu o primeiro movimento voluntário: flexão do dedão do pé, o primeiro indicativo clínico de reconexão funcional. Hoje, quase sete anos depois do acidente, Bruno se encontra no que define como seu ápice de recuperação funcional, tornando-se 100% independente, com apenas algumas sequelas residuais. Na postagem feita por Laís, ela compartilhou um vídeo de Bruno conduzindo a cadeira de rodas da ex-ginasta, andando normalmente.
Há uma campanha na internet para que a médica Tatiana Coelho seja indicada ao Prêmio Nobel de Medicina, justamente por meio dos resultados da polilaminina em pacientes tetraplégicos, o que já é considerado uma das maiores descobertas científicas neste século.
(*) com informações do Correio do Estado











