O cronograma para instalação da fábrica de celulose da Bracell em Bataguassu, a 320 quilômetros de Campo Grande, sofreu novos atrasos. Previstas para começarem em fevereiro deste ano, as obras ainda não foram iniciadas porque a empresa não obteve a Licença de Instalação junto ao Governo do Estado.
Em 22 de agosto do ano passado, o governador Eduardo Riedel havia estimado que a licença seria concedida antes do final de 2025, o que permitiria o início das obras em fevereiro de 2026. “Deu certo, assinamos o acordo final. Eles começam agora em fevereiro de 2026 a obra já e estamos discutindo novos investimentos”, comemorou o governador na ocasião.
No entanto, em dezembro foi concedida somente a Licença Prévia. No começo de janeiro, durante visita ao local onde deve ser construída a fábrica, o secretário de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, Jaime Verruck, afirmou que “em março, a empresa deve receber a Licença de Instalação. Acho que esse será um marco importante dentro desse processo”.
Agora, contudo, o secretário já admite que este prazo não será cumprido. “A gente emitiu a licença prévia. Ainda falta alguns trâmites a serem realizados, mas acredito que até o final de abril ou começo de maio a gente deve entregar a licença de instalação da fábrica”, afirmou Verruck no último dia 28, sem explicitar os motivos que levaram ao adiamento.
Procurada para esclarecer o cronograma dos trabalhos e os motivos exatos da demora para obtenção da licença, a Bracell não repassou detalhes, mas deixou claro que o empreendimento estimado em R$ 16 bilhões vai sair do papel.
“Neste momento, a empresa segue cumprindo os cronogramas, em fase de estudos e de atendimento às exigências legais que subsidiam a análise dos órgãos competentes e garantem a transparência do processo. Alinhado às demais iniciativas da empresa, o projeto é pautado pela responsabilidade socioambiental, pelo diálogo aberto com as comunidades e pelo cumprimento rigoroso da legislação, reforçando o olhar atento da Bracell para gerar valor nas regiões onde está presente”, informou a empresa.
Em Inocência, a chilena Arauco teve trajetória diferente: dois meses após a concessão solene da Licença de Instalação, deu largada aos trabalhos de terraplenagem. Se a Bracell receber a licença em maio, as obras poderiam começar apenas no início do segundo semestre.
A fábrica, a primeira de Mato Grosso do Sul a produzir celulose para fabricação de tecidos, ficará às margens da BR-267, a nove quilômetros da área urbana de Bataguassu, entre a cidade e o lago da hidrelétrica de Porto Primavera, a quase quatro quilômetros do reservatório.
É deste lago, resultado do represamento do Rio Paraná, que a indústria vai captar os 11 milhões de litros de água por hora necessários para viabilizar o funcionamento da unidade. Cerca de 9 milhões de litros serão devolvidos ao lago após tratamento. Segundo a Bracell, todos os efluentes serão tratados e trarão impacto mínimo na qualidade da água.
As obras, que agora não têm data definida para início, devem se estender ao longo de 38 meses — quatro para os trabalhos de terraplanagem e 34 para a construção da fábrica propriamente dita. Ou seja, se tiverem início em meados de 2026, devem se estender até o final de 2029.
No pico dos trabalhos, devem ser gerados 12 mil empregos, e cerca de dois mil após o início da operação.
Por ano, a indústria deve processar 12 milhões de metros cúbicos de eucaliptos, provenientes de aproximadamente 300 mil hectares de reflorestamento. Cerca de um terço deste montante já está em fase de crescimento em municípios como Santa Rita do Pardo, Ribas do Rio Pardo e Bataguassu.
Em anos sem paradas para manutenção, serão produzidas 2,9 milhões de toneladas de celulose. Dependendo da demanda, a unidade terá condições de produzir celulose solúvel, como já ocorre com a fábrica do grupo asiático em Lençóis Paulista (SP).
Esse tipo de celulose é utilizado na produção de fibras têxteis, produtos de higiene (fraldas, lenços umedecidos), alimentos (sorvetes, molhos), fármacos (cápsulas) e produtos químicos (tintas, esmaltes).
Além da produção de celulose, o estudo ambiental informa que será gerada energia suficiente para abastecer a indústria, com excedente que será injetado na rede elétrica da região. A quantidade exata dessa energia, porém, não foi divulgada.
Conforme a previsão, a celulose será escoada por caminhões, pela MS-395 e BR-158, margeando o Rio Paraná, até a ferrovia que passa em Aparecida do Taboado. De lá, seguirá por trilhos até o porto de Santos.
Serão cerca de 270 quilômetros de rodovias que terão de receber melhorias, já que aproximadamente 80 mil carretas a mais por ano circularão por essas estradas.
A indústria de Bataguassu será a quinta do setor de celulose em Mato Grosso do Sul. A primeira, da Suzano, entrou em operação em 2009, em Três Lagoas. Depois, em 2012, foi ativada a unidade do grupo J&F, a Eldorado, também em Três Lagoas.
Em julho de 2024, começou a funcionar a fábrica da Suzano em Ribas do Rio Pardo, atualmente a maior fábrica de celulose em linha única do mundo, com capacidade para 2,55 milhões de toneladas por ano.
Este título, porém, passará a ser da Arauco, que no segundo semestre do próximo ano promete ativar uma fábrica em Inocência, onde serão produzidas 3,5 milhões de toneladas por ano. As obras estão em ritmo acelerado e atualmente empregam cerca de dez mil trabalhadores.











