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Disputa judicial por calote de R$ 663 mil acende alerta em obra bilionária de celulose em MS

Empresa de alimentação entra na Justiça contra fornecedora da Arauco, que constrói megafábrica em Inocência   Thais Dias A constr

13 ago 2025 - 04h12   Thaís Dias   atualizado em 08/05/2026 às 12h21
Disputa judicial por calote de R$ 663 mil acende alerta em obra bilionária de celulose em MS economia canteiro da arauco
Empresa de alimentação entra na Justiça contra fornecedora da Arauco, que constrói megafábrica em Inocência

 

Thais Dias

A construção da megafábrica da Arauco em Inocência, um dos maiores projetos industriais em andamento no Brasil, está no centro de uma disputa judicial que revela problemas no pagamento de fornecedores - situação que já havia marcado as obras da Suzano em Ribas do Rio Pardo. Desta vez, uma empresa responsável pela alimentação de milhares de trabalhadores entrou na Justiça para cobrar valores não pagos, levantando preocupações sobre o cumprimento de contratos no canteiro de obras.


A Dom Chef, empresa especializada em alimentação coletiva, alega que a FPM Serviços de Alimentação deixou de repassar R$ 663 mil referentes a um contrato que garantia refeições diárias para os operários da obra. Entre agosto de 2023 e junho de 2024, a FPM teria faturado impressionantes R$ 23,5 milhões com a venda de alimentação no canteiro, mas repassou apenas R$ 546 mil dos R$ 1,17 milhão devidos à Dom Chef, que receberia 5% do valor total das vendas conforme acordo firmado.


O caso ganhou proporções maiores porque a Dom Chef incluiu na ação judicial não apenas a FPM, mas também o Consórcio MLC Aterpa (responsável direto pela construção) e a própria Arauco, multinacional chilena dona do projeto. Na prática, a empresa argumenta que, como beneficiária final dos serviços, a Arauco deveria garantir o pagamento correto a todos os envolvidos na cadeia de fornecedores.


A situação preocupa porque lembra os problemas enfrentados durante a construção da fábrica da Suzano em Ribas do Rio Pardo, onde diversas empresas terceirizadas deixaram de pagar fornecedores, acumulando dívidas que ultrapassaram R$ 10 milhões. Na época, a Suzano precisou intervir para quitar parte das obrigações trabalhistas, mas muitos fornecedores menores ficaram no prejuízo.


A Arauco, por sua vez, afirma que todos os pagamentos a fornecedores e terceirizados estão sendo realizados rigorosamente em dia, conforme os contratos vigentes, mas se recusou a comentar o caso específico por estar em segredo de Justiça. Enquanto isso, a FPM, empresa de Maceió que montou uma filial em Mato Grosso do Sul especialmente para atender o contrato, não foi localizada para se manifestar sobre as acusações.


O caso ganha ainda mais relevância quando se considera a escala do Projeto Sucuriú. Com investimento de US$ 4,6 bilhões (cerca de R$ 25 bilhões), a fábrica da Arauco em Inocência será, quando concluída em 2027, a maior planta de celulose de linha única do mundo, com capacidade para produzir 3,5 milhões de toneladas por ano. Durante o pico das obras, o projeto deve gerar 14 mil empregos diretos, reduzindo para cerca de 6 mil quando entrar em operação.


Enquanto a disputa judicial segue seu curso - com a Dom Chef tentando ter acesso a documentos e notas fiscais que comprovem os valores devidos - as refeições continuam sendo servidas normalmente no canteiro de obras. No entanto, o caso serve como alerta para outros pequenos e médios fornecedores que participam do megaprojeto, muitos dos quais dependem desses pagamentos para manter suas operações.


A situação expõe uma fragilidade comum em grandes obras de infraestrutura no Brasil: a complexa cadeia de subcontratações, onde problemas financeiros em um elo podem afetar toda a rede de fornecedores. Para os trabalhadores no canteiro de obras, a preocupação imediata é que disputas como essa não afetem a qualidade ou continuidade dos serviços essenciais, como a alimentação.


Para a economia regional, o caso representa um dilema: de um lado, os enormes investimentos e oportunidades gerados por projetos desta magnitude; de outro, os riscos de que os benefícios não sejam distribuídos de forma justa por toda a cadeia produtiva. Enquanto a Justiça não se pronuncia definitivamente sobre o caso, a população de Inocência e região acompanha com atenção os desdobramentos, torcendo para que a promessa de desenvolvimento trazida pela megafábrica não seja comprometida por disputas contratuais.

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