Depois de publicar uma foto na internet, Ana Beatriz Loureiro, de 20 anos, foi vítima do “deep nude”: teve suas roupas removidas virtualmente e imagem circulada em grupos de Whastapp.

 

A vida da jovem Ana Beatriz Loureiro, de 20 anos, mudou de repente quando recebeu uma mensagem inesperada de uma conhecida: “tem uma foto sua circulando em grupos do WhatsApp”. Não era qualquer foto, mas sim, uma imagem da jovem nua. Só que Ana nunca havia tirado aquela foto.

Na verdade, ela havia postado em suas redes sociais uma foto parecida, em que estava completamente vestida. Percebeu então que havia sido vítima de um “deep nude”, nome que caracteriza imagens e vídeos falsos, baseados em um modelo real, que depois são alterados em computador.

“Já tinha ouvido falar sobre outros casos, só nunca pensei que eu fosse ser uma vítima também. Ter uma invasão dessa na nossa privacidade nos deixa mexido demais”, lamentou a jovem.

Um dos casos que Ana ouviu falar foi a da atriz Isis Valverde, que procurou a Delegacia de Repressão a Crimes de Informática, da Polícia Civil do Rio de Janeiro em outubro deste ano, depois que fotos suas, postas em redes sociais, foram adulteradas para simular o vazamento de “nudes”.

Assustada com a facilidade em adulterar uma imagem, Ana Beatriz também procurou a Polícia Civil do município de Jardim (MS), onde mora. Ela registrou um boletim de ocorrência por “divulgação de cena de pornografia” e “registro não autorizado da intimidade sexual, montagem em fotografia, áudio ou qualquer outro registro”.

No entanto, a jovem relata que saiu da delegacia sem esperanças de que o autor da montagem fosse descoberto. No local, ela disse ter ouvido que era muito difícil solucionar crimes cibernéticos deste tipo.

Ana, que preferiu ter sua imagem preservada, ressaltou que isso não a desmotivou a procurar o autor da montagem, mesmo sem ter ideia de quem possa tê-la feito. “Simplesmente não tem explicações”.

“Ainda quero achar quem fez isso para que essa pessoa pague. Nós precisamos nos sentir seguras e não está sendo fácil. Se torna mais difícil ainda quando as autoridades não dão importância pra casos como esse, só porque alguém não foi morto ou violentado fisicamente. É triste ver que eles não estão nem aí”, ressaltou.


Atriz Isis Valverde em imagem postado no Instagram, à esquerda. Ao lado, uma das montagem compartilhadas — Foto: Reprodução

 

Ana se considera uma pessoa forte. Buscou nos amigos e familiares a força para passar pelo momento de exposição, mas teme que o mesmo aconteça com mais pessoas que não teriam o mesmo suporte que ela. Mas a jovem ainda sofre com o ocorrido, em seu perfil, apagou todas as fotos publicadas.

Por isso, decidiu falar abertamente sobre o ocorrido nas redes sociais para alertar outras pessoas. Ao contrário do que esperava, Ana recebeu inúmeras mensagens a acusando de inventar a história para ganhar seguidores.

“Eu não tenho expectativa nenhuma de virar blogueira, nem nada. O pessoal começou a comentar isso, e isso não se trata disso. Eu passei por uma situação muito ruim, muito ruim mesmo. Eu fiquei muito mal. Eu até agora não tô conseguindo nem sair direito na minha cidade, sabe? Tô tentando ficar só em casa, com as pessoas que eu conheço”, lamentou.
Crime

Alterar imagens para forjar a nudez de alguém é um crime já previsto no código civil, com pena de detenção. O Art. 216-B do Código Penal também proíbe e pune montagens em fotos ou vídeos com objetivo de incluir pessoa em cenas de nudez ou registros íntimos. Além disso, há projetos em tramitação na Câmara Legislativa para criminalizar o deep fake, proibindo uso de aplicativos de inteligência artificial com essa finalidade.

O assunto já virou tema de debate nacional após montagens com nudes de alunas do Colégio Santo Agostinho da Barra da Tijuca terem circulado em grupos de WhatsApp. Alunos do 7º ao 9º são suspeitos de usar inteligência artificial para remover as roupas de fotos das jovens que foram postadas nas redes sociais. Eles teriam baixado um aplicativo, feito as alterações e disparado as imagens adulteradas entre grupos.

A psicanalista Vera Iaconelli, autora do livro “Manifesto antimaternalista”, defende que a sociedade brasileira é extremamente conservadora e, na internet, isso é potencializado. Para a especialista, são a rede precisa ser regulada, para que as pessoas sejam responsabilizadas pelo que fazem enquanto navegam nas redes.

“A relação com a internet é aditiva e ela é feita para ser aditiva, mais do que cigarro e cocaína. Ela é mais difícil de romper, pelas relações sociais que estão colocadas lá, do que todas as drogas que foram colocadas hoje. E as mulheres estão mais expostas a isso, elas lidam mais com as questões emocionais, elas se preocupam mais com o que fazer, e estão mais vigiadas neste lugar. As mulheres são mais suscetíveis e os estudos mostram que para as meninas a internet é mais nociva”, apontou.

Do outro lado da tela, quem viu a falsa intimidade ser exposta sofre pela segunda vez com o julgamento dos seguidores.

“A gente tem a privacidade da gente invadida e, infelizmente, a maldade das pessoas, eles não conseguem enxergar o quão doente é isso. O quão isso é péssimo para a saúde mental da gente, o quanto isso é vergonhoso, é terrível, é um crime e é um abuso contra a nossa privacidade”, completou Ana.

 

Fone: G1/MS

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