O Conselho Nacional de Justiça aplicou na terça-feira, 10, a pena de aposentadoria compulsória ao desembargador Divoncir Schreiner Maran, do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul, por decisão que libertou um dos chefes do Primeiro Comando da Capital há quase seis anos. A punição, considerada a mais severa no âmbito do Judiciário, foi imposta por unanimidade e permite que o magistrado continue recebendo vencimentos proporcionais ao tempo de serviço .
O caso remonta a abril de 2020, durante o plantão judiciário do feriado de Tiradentes. Em apenas quarenta minutos, Maran analisou um habeas corpus de 208 páginas e concedeu prisão domiciliar a Gerson Palermo, conhecido como Pigmeu, condenado a quase 126 anos de reclusão por tráfico internacional de drogas, associação para o tráfico e pelo sequestro de um Boeing 727 da Vasp, ocorrido em agosto de 2000 .
A defesa de Palermo alegava que ele integrava grupo de risco da Covid-19 por ter mais de 60 anos e diabetes. O Conselho Nacional de Justiça, no entanto, concluiu que a decisão foi tomada sem qualquer laudo médico que comprovasse a condição alegada. Trata-se de decisão flagrantemente inadequada, configurando grave violação aos deveres funcionais inerentes ao exercício da atividade jurisdicional, declarou o relator do processo, conselheiro João Paulo Schoucair .
O criminoso deixou o presídio federal de segurança máxima de Campo Grande na tarde de 22 de abril de 2020 e colocou a tornozeleira eletrônica ao meio-dia. Horas depois, o desembargador Jonas Hass Silva revogou a liminar, mas já era tarde. Às 20h14, a unidade de monitoramento registrou o rompimento do equipamento. Palermo fugiu e, desde então, segue na lista de procurados do Sistema Único de Segurança Pública .
As investigações da Polícia Federal apontaram que Palermo é piloto e atuava como chefe e coordenador do esquema de tráfico de cocaína pela fronteira com o Paraguai. Ele foi preso em março de 2017 durante a Operação All In, que resultou na apreensão de mais de 800 quilos de cocaína em Cubatão e São Paulo. A droga entrava no Brasil por aeronaves que pousavam em Corumbá, no Mato Grosso do Sul, e seguia por caminhões para outras regiões do país. O grupo utilizava aeronaves, carretas e veículos registrados em nome de laranjas, além de contar com despachantes aeronáuticos e uma rede de falsários para lavagem de dinheiro .
O histórico criminal de Palermo é extenso. Em fevereiro de 2001, ele foi condenado pela Justiça Federal de Londrina a 20 anos e seis meses de prisão pelo sequestro do Boeing da Vasp. Na ocasião, o avião com 61 passageiros e seis tripulantes foi desviado cerca de 20 minutos após decolar de Foz do Iguaçu com destino a Curitiba. A quadrilha obrigou o pouso em Porecatu, interior do Paraná, e roubou nove malotes do Banco do Brasil que continham R$ 5,56 milhões .
Ao todo, suas penas somam quase 126 anos de reclusão. Mesmo foragido, a defesa de Palermo ingressou em 2024 com pedido de revisão de prisão no Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul, pleiteando a revogação de todos os mandados. O desembargador Luiz Gonzaga Mendes Marques negou o recurso por unanimidade. Em trecho da decisão, afirmou que o agravante é custodiado de altíssima periculosidade, renomado traficante há décadas, possuindo notório envolvimento com a facção criminosa PCC, mundialmente conhecida por seu alto poderio bélico e econômico .
O desembargador Divoncir Schreiner Maran, que já presidiu o Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul, foi alvo de operação da Polícia Federal em fevereiro de 2024. Na ocasião, agentes cumpriram mandados de busca e apreensão em seu gabinete e em seu condomínio de luxo em Campo Grande. A investigação apurava indícios de corrupção passiva e lavagem de dinheiro na venda de sentenças judiciais. O magistrado chegou a ser afastado das funções, mas retornou ao cargo no mesmo ano por decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, embora o inquérito tenha concluído pela culpa dos investigados .
O Conselho Nacional de Justiça também apontou que investigações da Polícia Federal identificaram movimentações financeiras consideradas incompatíveis com a renda declarada do magistrado. Ao final do julgamento, o relator afirmou que os fatos analisados demonstram violação aos deveres de imparcialidade, prudência e decoro exigidos de integrantes do Judiciário .
Seis anos após a fuga, Gerson Palermo permanece foragido. A suspeita é que ele tenha escapado para a Bolívia, onde mantinha residência em Corumbá, na fronteira com o Brasil. Em março de 2024, a Justiça Federal do Paraná revogou uma prisão preventiva contra ele em outro processo, mas as ordens de captura em Mato Grosso do Sul foram mantidas diante das condenações pendentes e do histórico de fuga .
A aposentadoria compulsória de Divoncir Schreiner Maran, aplicada nesta terça-feira, coloca um ponto final na carreira do magistrado, mas não encerra o episódio. Palermo continua na condição de foragido, e a decisão do Conselho Nacional de Justiça não interfere nos inquéritos criminais que seguem em andamento.











