Estância clandestina onde amigos morreram em tirolesa tem como sócio ex-presidente do TCE-MS investigado por corrupção

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 Estância Walf, palco da tragédia que matou dois jovens no último domingo (22) durante uma festa de casamento em Bonito, a 276 km de Campo Grande, tem como sócio o ex-presidente do Tribunal de Contas de Mato Grosso do Sul (TCE-MS), Waldir Neves Barbosa, que já foi investigado por suspeitas de corrupção.

Segundo apuração, a propriedade está registrada no nome da empresa Walf Agropecuária e Empreendimentos Turísticos e Imobiliários Ltda., aberta em 23 de abril de 2021, com valor estimado em R$ 4,4 milhões. A principal atividade econômica da estância é o aluguel de imóveis próprios, tendo como atividades secundárias o cultivo de plantas e a criação de bovinos para corte.

Entretanto, o empreendimento funcionava de forma clandestina. O Corpo de Bombeiros informou que o local não possuía Certificado de Vistoria, documento essencial para que a prefeitura libere o alvará de funcionamento. Sem essa regularização, qualquer evento realizado no espaço é considerado irregular. A estância foi notificada, multada e interditada pela corporação.

A tragédia

As mortes ocorreram na manhã de domingo (22), quando Gustavo Henrique Camargo, de 29 anos, e Pedro Henrique de Jesus, de 20 anos, participavam de uma festa de casamento que havia alugado o local por três dias. Os jovens eram convidados e moravam em Vicentina e Caarapó, respectivamente.

De acordo com a Polícia Civil, Gustavo descia por uma tirolesa instalada sobre uma lagoa quando teria sofrido uma descarga elétrica ao entrar na água. Ao ver o amigo em dificuldade, Pedro entrou no açude para socorrê-lo e também pode ter sido atingido pela descarga. Familiares confirmaram que Gustavo caiu na água após o possível choque e teve dificuldade para sair.

Pedro morreu ainda no domingo, após dar entrada no hospital de Bonito. Gustavo foi reanimado e transferido em vaga zero para a Santa Casa de Campo Grande, mas não resistiu e faleceu na noite do mesmo dia.

Estrutura perigosa

A perícia identificou que toda a estrutura da tirolesa era metálica e que no topo da torre havia um sistema de iluminação com fiação antiga e pontos desencapados. A suspeita da polícia é de que essa instalação possa ter energizado toda a estrutura metálica, explicando o choque elétrico relatado por testemunhas.

Uma das vítimas apresentava lesões na pele compatíveis com descarga elétrica, o que reforça essa linha de investigação. Equipes da perícia estiveram no local com apoio técnico da Energisa, concessionária de energia do estado, mas até o momento não há indícios de que o acidente tenha relação com a rede pública de eletricidade, já que tudo ocorreu dentro da propriedade particular.

A polícia aguarda a conclusão dos laudos periciais e necroscópicos para confirmar a dinâmica do acidente e apurar eventuais responsabilidades criminais.

O advogado e amigo dos proprietários da Estância Walf, Luiz Guilherme Pinheiro de Lacerda, afirmou que os donos não estavam no local no momento do acidente. Segundo ele, a estância é uma propriedade particular, de uso privativo, eventualmente alugada para conhecidos.

Sobre a tirolesa, construída há quatro anos, o advogado informou que não havia registro anterior de problemas. Quanto à suspeita de descarga elétrica, afirmou que a perícia realizou medições no local e que, naquele primeiro momento, não havia ponto energizado. Ele acrescentou que há refletores próximos à estrutura, mas estavam desligados, já que o acidente ocorreu durante o dia.

O advogado não comentou a falta de autorização para funcionamento do local.

Waldir Neves Barbosa foi citado como integrante de esquema de lavagem de dinheiro, fraude e superfaturamento em licitações públicas na Operação Terceirização de Ouro, deflagrada pela Polícia Federal em 2022.

Segundo a PF, o esquema começou com a licitação de serviços da empresa Dataeasy, que recebeu mais de R$ 100 milhões do TCE-MS em contratos fraudulentos desde 2018. As empresas “escolhidas” ganhavam as licitações sem seguir especificações necessárias, com documentos falsos e em tempo recorde.

Afastado do TCE em dezembro de 2022, Waldir Neves foi autorizado pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), a retornar ao cargo em maio de 2025, com a determinação de retirada da tornozeleira eletrônica.

A Prefeitura de Vicentina decretou luto oficial de três dias pelo falecimento dos jovens.

 

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Edição 274