Guerra no Irã ameaça abastecimento de diesel no Brasil e acende alerta no agronegócio

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A escalada das tensões no Oriente Médio, com a guerra envolvendo o Irã, provocou uma disparada no preço internacional do petróleo, que superou os US$ 119 o barril — o maior valor desde 2022. O reflexo no mercado brasileiro acendeu um alerta vermelho: a oferta de diesel está em risco, especialmente para o agronegócio, que enfrenta dificuldades para abastecer máquinas e frotas em plena colheita da soja e plantio do milho segunda safra.

A defasagem do diesel vendido pela Petrobras no mercado interno em relação aos preços internacionais atingiu 85%, segundo a Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom). Com a diferença recorde, importadores suspenderam novas aquisições, inviabilizadas economicamente. Os estoques atuais garantem o abastecimento por aproximadamente 15 dias, conforme a entidade.

No Rio Grande do Sul, produtores rurais enfrentam cancelamento de entregas de diesel desde a última sexta-feira (6). A Federação da Agricultura do Estado (Farsul) e a Federação das Associações de Arrozeiros (Federarroz) expuseram a situação durante o fim de semana, em um momento crítico para o setor, que demanda grande quantidade do combustível para operar máquinas agrícolas e escoar a produção.

A Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja Brasil) manifestou preocupação nesta segunda-feira (9) com a interrupção no fornecimento. Para a entidade, a restrição compromete operações no campo, pressiona custos e ameaça a logística de escoamento da safra.

O que diz a ANP

A Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) reconheceu que há dificuldades pontuais de aquisição de diesel por produtores rurais gaúchos, mas afirmou que a produção e a entrega do combustível seguem em ritmo regular pelo principal fornecedor do estado — a Refinaria Alberto Pasqualini (Refap), da Petrobras, localizada em Canoas.

Em nota, a agência destacou que o Rio Grande do Sul produz mais diesel do que consome e está com estoques regulares. “Não foram constatadas justificativas técnicas ou operacionais que expliquem uma eventual recusa no fornecimento”, informou.

A ANP disse ainda que equipes técnicas estão verificando instalações e operações relevantes, e que distribuidoras serão notificadas para prestar esclarecimentos sobre estoques e pedidos recebidos. Aumentos injustificados de preços também serão investigados em conjunto com órgãos de defesa do consumidor.

Preços e estratégia da Petrobras

Na última sexta-feira (6), a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, reforçou que a estatal manterá a estratégia de não repassar a volatilidade dos preços internacionais para o mercado interno. A declaração afastou a expectativa de um reajuste no curto prazo, mas acendeu dúvidas sobre a capacidade da empresa de suprir integralmente a demanda sem comprometer suas margens.

Segundo o analista de energia da Ativa Investimentos, Ilan Arbetman, a margem de ganho no refino do diesel gira atualmente em torno de 8%, mas pode cair a 1,2% caso a estatal absorva integralmente o custo da defasagem. “Isso traz preocupação. O que vamos monitorar é o risco sobre a alavancagem que a Petrobras tinha para não fazer o repasse”, avaliou.

Diferentemente do diesel, a gasolina tem menor dependência de importações — entre 5% e 10% —, o que reduz o risco de desabastecimento. A defasagem do produto nas refinarias da Petrobras é de 49%, e de 46% nas refinarias privadas.

Setor pede ampliação do uso de biocombustíveis

Diante da crise, representantes do agronegócio defendem medidas emergenciais e estruturais. A Aprosoja Brasil solicitou aumento da mistura de biodiesel ao diesel de origem fóssil como forma de reduzir a dependência externa e ampliar a segurança energética do setor.

A entidade também cobrou ação imediata das autoridades para restabelecer o abastecimento, coibir práticas abusivas e avançar na utilização de biocombustíveis no transporte de cargas e em máquinas agrícolas. “A restrição de oferta abre espaço para oportunismo e elevação abusiva de preços, o que pressiona custos e pode resultar em inflação de alimentos”, alertou a associação.

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Edição 274