Dívida de aluguel de R$ 850 mil e prazo de desocupação: os bastidores do assassinato que chocou Campo Grande

whatsapp-image-2026-03-24-at-184301-1

Um confronto envolvendo a posse de uma mansão na região central de Campo Grande terminou em tragédia na tarde desta terça-feira (24). O ex-prefeito da capital, Alcides Bernal, deu três disparos de revólver contra o fiscal tributário Roberto Carlos Mazzini, de 61 anos, que morreu no local. O crime ocorreu na Rua Antônio Maria Coelho, em uma das áreas mais nobres da cidade.

A vítima, servidor concursado da Secretaria de Estado de Fazenda (Sefaz) desde 2008, ocupava um dos cargos mais cobiçados do Executivo estadual. No início de março, seu salário foi de R$ 69,1 mil. Ele estava lotado em um posto de atendimento da Sefaz na Acrisul, em Campo Grande.

A motivação do assassinato está diretamente ligada à disputa pelo imóvel que pertencia a Bernal. A mansão, com 680 metros quadrados de área construída em um terreno de 1,4 mil metros quadrados, foi arrematada por Mazzini em um leilão judicial realizado pela Caixa Econômica Federal. O fiscal pagou pouco mais de R$ 2,4 milhões pelo imóvel — no primeiro pregão, a propriedade havia sido ofertada por R$ 3,7 milhões, mas não houve interessados.

Notificação extrajudicial e prazo de 30 dias

No interior da caminhonete da vítima, periciada no local do crime, os investigadores encontraram uma notificação extrajudicial datada de 20 de fevereiro deste ano. No documento, enviado por Mazzini, o comprador dava um prazo de 30 dias para que Bernal desocupasse a casa e entregasse as chaves. O assassinato ocorreu quatro dias após o fim desse prazo.

A notificação também estabelecia que, em caso de recusa na entrega do imóvel, o ex-prefeito teria que pagar um aluguel mensal correspondente a 1% do valor do imóvel — o que totalizaria R$ 24.135,45 por mês. Segundo o documento, o valor seria cobrado de forma retroativa a abril de 2023, quando a Caixa Econômica adjudicou o imóvel em leilão. A dívida de aluguéis retroativos chegaria a quase R$ 850 mil.

Especialistas ouvidos ressaltam, no entanto, que uma notificação extrajudicial não tem validade legal para obrigar a desocupação do imóvel nem para impor o pagamento de valores retroativos.

O crime

O assassinato aconteceu pouco antes das 14h. Segundo as primeiras informações, Mazzini estava acompanhado de um chaveiro e teria ido até o imóvel para tomar posse da casa. Foi quando Bernal chegou ao local. O ex-prefeito fez pelo menos três disparos de um revólver calibre 38. Dois tiros atingiram o fiscal.

Socorristas realizaram manobras de reanimação por cerca de 25 minutos, mas Mazzini não resistiu aos ferimentos e morreu ainda no local.

Logo após os disparos, Bernal se apresentou espontaneamente na Depac Cepol, na região do bairro Tiradentes. O chaveiro que acompanhava a vítima será testemunha-chave nas investigações.

Versão de legítima defesa

O advogado de Bernal, Wilton Acosta, afirmou que o ex-prefeito teria sido alertado por sua empresa de segurança de que a casa teria sido invadida. Ao chegar ao local, segundo a defesa, Bernal teria sido ameaçado por Mazzini e por outras duas pessoas, o que o levou a efetuar os disparos em legítima defesa. O advogado informou ainda que a arma utilizada possui registro e que Bernal é colecionador, atirador e caçador (CAC).

O delegado Oswaldo Meza, responsável pelo caso, informou que o registro foi feito como homicídio simples, com a alegação de legítima defesa sendo considerada inicialmente. O delegado afirmou que, por enquanto, não divulgaria mais detalhes sobre o depoimento do ex-prefeito.

Por ser formado em Direito, Bernal passou a noite em uma sala especial no Comando da Polícia Militar. Nesta quarta-feira (25), ele deve passar por audiência de custódia, na qual a Justiça decidirá se mantém a prisão ou concede liberdade.

Dívida de IPTU e disputa judicial

A mansão que motivou o crime também acumula uma dívida significativa de Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU). Segundo documentos, o débito com a prefeitura chega a R$ 344.923,14, valor elevado em razão do porte do imóvel — quase 680 metros quadrados construídos em um terreno de 1,4 mil metros quadrados, localizado em área nobre da capital.

A disputa pela posse da casa vinha se arrastando desde abril de 2023, quando a Caixa Econômica Federal adjudicou o imóvel. Mazzini tentava desde então assumir a propriedade, mas Bernal permanecia residindo no local, conforme confirmou a defesa do ex-prefeito.

Carreira política de Alcides Bernal

Radialista de origem, Alcides Bernal construiu sua trajetória política na popularidade conquistada no rádio. Foi vereador por dois mandatos e, em 2010, elegeu-se deputado estadual com 20.910 votos, tornando-se o segundo mais votado.

Em 2012, protagonizou uma das maiores viradas eleitorais da história de Campo Grande ao derrotar Edson Giroto no segundo turno, com 62,55% dos votos válidos, desbancando o candidato apoiado por nomes tradicionais da política sul-mato-grossense.

Seu mandato, no entanto, foi marcado por turbulências. Em março de 2014, tornou-se o primeiro prefeito cassado pela Câmara Municipal de Campo Grande. Seu vice, Gilmar Olarte, foi um dos principais articuladores da cassação e assumiu o cargo.

Em maio daquele ano, um juiz de primeira instância suspendeu a cassação e determinou o retorno de Bernal ao cargo. Horas depois, aliados do ex-prefeito ocuparam o prédio da prefeitura. No entanto, a decisão foi revertida pelo Tribunal de Justiça ainda no mesmo dia, e Olarte reassumiu.

Bernal só conseguiu retornar definitivamente ao cargo em 25 de agosto de 2015, permanecendo até o fim do mandato, em 31 de dezembro de 2016. Tentou a reeleição, mas foi derrotado. Nos anos seguintes, candidatou-se novamente sem obter sucesso.

Nota do sindicato

O sindicato que representa os servidores públicos emitiu nota lamentando o assassinato de Roberto Carlos Mazzini:

“É com profunda consternação e indignação que recebemos a notícia do assassinato do nosso colega Roberto. Ele era um servidor dedicado, pai de família e, acima de tudo, uma pessoa honrada. Neste momento de dor, expressamos nossa solidariedade à família e a todos que tiveram o privilégio de conviver com ele. A perda deixa uma lacuna irreparável no seio da família e em toda a nossa categoria, que hoje se encontra enlutada.”

Familiares da vítima estiveram próximos ao local do crime ao longo da tarde, mas não falaram com a imprensa.

Compartilhe nas Redes Sociais

Banca Digital

Edição 276