{"id":35156,"date":"2025-05-27T10:50:13","date_gmt":"2025-05-27T14:50:13","guid":{"rendered":"https:\/\/expressaoms.com.br\/?p=35156"},"modified":"2025-05-30T14:37:58","modified_gmt":"2025-05-30T18:37:58","slug":"colonialismo-de-apostas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/expressaoms.com.br\/index.php\/2025\/05\/27\/colonialismo-de-apostas\/","title":{"rendered":"Colonialismo de apostas"},"content":{"rendered":"<p><strong><em>*<\/em><\/strong>\u00a0<strong><em>Marcos Henrique Prud\u00eancio da Silva<\/em><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na era colonial a domina\u00e7\u00e3o do povo explorado passava pela brutalidade do belicismo (guerras, mortes, viol\u00eancia sexual) e da desgra\u00e7a da escravid\u00e3o, em tempos de p\u00f3s-globaliza\u00e7\u00e3o, o colonialismo assume o formato digital. Ao inv\u00e9s de metr\u00f3poles, <em>big tech\u2019s<\/em> (grandes empresas digitais), a apropria\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio (enquanto recursos naturais) d\u00e1 lugar ao colonialismo das apostas, eficaz na psique humana j\u00e1 voltada por natureza ao jogo.<\/p>\n<p>A \u00e2nsia por competi\u00e7\u00e3o foi estudada por Johan Huizinga (1872-1945), fil\u00f3sofo, e este escreveu: <em>&#8220;O jogo \u00e9 uma interrup\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria da realidade.&#8221;<\/em> Para ele o jogo, a ludicidade s\u00e3o intr\u00ednsecos ao ser humano, \u00e1vidos por disputas realizamos no jogo a fuga da condi\u00e7\u00e3o atual para uma conjuntura diferente, buscando felicidade.<\/p>\n<p>E em um mundo <em>data\u00edsta<\/em>, obcecado pelos dados cedidos voluntariamente nas redes sociais (um \u201cShow de Truman\u201d \u00e0s avessas), discernir entre os diversos humanos que possuem capacidade para aliciar novos jogadores n\u00e3o \u00e9 uma tarefa dif\u00edcil \u2013 ouso dizer que se \u00e9 poss\u00edvel encontrar tantos dados das pessoas em redes sociais a ponto de tra\u00e7ar <em>perfis<\/em> psicol\u00f3gicos, n\u00e3o seria poss\u00edvel direcionar a propaganda destas casas de apostas virtuais a quem j\u00e1 demonstra uma suscetibilidade ao jogo de azar? Os chamados <em>influencers<\/em> s\u00e3o os porta-bandeiras destes colonizadores informacionais, utilizam de sua domina\u00e7\u00e3o carism\u00e1tica para as <em>big tech\u2019s<\/em> das apostas fincarem seus grilh\u00f5es nas mentes dos brasileiros e assim drenarem suas riquezas.<\/p>\n<p>Os tipos de jogos de azar s\u00e3o m\u00faltiplos na rede, <em>Fortune Tigger <\/em>(o famoso Tigrinho), <em>Spaceman<\/em>, <em>Aviator<\/em>, e entre outros, estes prometem grandes riquezas cintilantes aos <em>player\u2019s<\/em>, por\u00e9m em seu pr\u00f3prio site, o <em>\u201cTigrinho\u201d, <\/em>afirma que apenas 96% das apostas retornam (talvez, pois a recompensa \u00e9 distribu\u00edda aleatoriamente) aos jogadores no longo prazo, sendo bondoso se forem apostados 100 reais, 96 reais voltam, o que falta \u00e9 lucro. <strong>Nunca \u00e9 poss\u00edvel ganhar mais do que se apostou!<\/strong> O foco \u00e9 este: viciar quem aposta para rapinar o dinheiro.<\/p>\n<p>\u00c9 importante espacializar a quest\u00e3o para entender a rota de drenagem monet\u00e1ria, empresas elaboradoras destes jogos possuem sede (ao menos no que reportam, pois por vezes mant\u00e9m contas em para\u00edsos fiscais, como Malta, Chipe e Cura\u00e7ao) em Malta (<em>Pragmatic Play &#8211; Jogos: Fortune Tiger, Gates of Olympus; PG Soft &#8211; Jogo: Fortune Tigger e Spaceman<\/em>), na Ge\u00f3rgia (<em>Spribe &#8211; Jogo: Aviator<\/em>), e na Su\u00e9cia (<em>Evolution Gaming &#8211; Jogos: Roleta Ao Vivo, Crazy Time<\/em>). Elas possuem mais plataformas de apostas do que as mencionadas, essas s\u00e3o as mais famosas. Apesar da localiza\u00e7\u00e3o os jogos possuem certificados e licen\u00e7as quase que globais, seus rizomas (ra\u00edzes) se espalham ferozmente sobre o globo buscando a que conta corrente esgotar.<\/p>\n<p>Pelos dados, somente no Brasil o jogo: <em>Aviator<\/em> movimenta aproximadamente 1 bilh\u00e3o de reais ao ano, o \u201cTigrinho\u201d 300 a 500 milh\u00f5es de reais, o <em>Spaceman<\/em> de 200 a 300 milh\u00f5es de reais. Quantas vidas s\u00e3o vampirizadas para essa riqueza escorrer de nosso territ\u00f3rio aos locais j\u00e1 citados? Realmente, n\u00e3o chegam perto dos 100 trilh\u00f5es de reais estimados que Portugal <strong><u>roubou<\/u><\/strong> do Brasil durante a coloniza\u00e7\u00e3o, todavia, permitiremos mais uma ladroagem?<\/p>\n<p>Pelo nosso congresso, senado e presidente, sim, visto a aprova\u00e7\u00e3o da lei 14.790 em 2023, ratificadora dos ca\u00e7a-n\u00edquel para celular. Um pa\u00eds j\u00e1 surrupiado no passado agora aceita uma domina\u00e7\u00e3o explorat\u00f3ria informacional, mesmo que contraditoriamente casas de apostas f\u00edsicas (cassinos) sejam proibidas no Brasil (decreto-lei n\u00ba 9.215, de 30 de abril de 1946). Ora, o pa\u00eds aceita ent\u00e3o que o chamado <em>cyber territ\u00f3rio<\/em> seja realmente um territ\u00f3rio al\u00e9m do f\u00edsico, ou seja, na realidade virtual tudo pode? \u00c9 err\u00f4neo, \u00e9 a-geogr\u00e1fico crer no mundo virtual como um local \u00e0 parte da base f\u00edsica, legislar de modo diferente para o f\u00edsico e cibern\u00e9tico \u00e9 possuir dois pesos e duas medidas.<\/p>\n<p>Huizinga, veria hoje seu <em>homo<\/em><em> ludens<\/em> (homem que joga) convertido pela psicopol\u00edtica (termo cunhado pelo fil\u00f3sofo Byung-Chul Han para designar a forma da pol\u00edtica atuar nas mentes, especialmente atrav\u00e9s das redes sociais) coisificado em um territ\u00f3rio a ser colonizado e ter seus recursos vitais transferidos para al\u00e9m-mar. O jogo deixa o seu car\u00e1ter cultural e se rende aos ditames do capitalismo neoliberal, sem Estado para a prote\u00e7\u00e3o, cidad\u00e3os s\u00e3o prezas f\u00e1ceis a voracidade das plataformas, e principalmente dos bandeirantes digitais, os ditos <em>influencers<\/em> (sem \u00e9tica, sem moral, sacerdotes da ru\u00edna, agentes parasit\u00e1rios da l\u00e1stima alheia!).<\/p>\n<p>A gan\u00e2ncia intr\u00ednseca ao ser humano \u00e9 cooptada pele colonialismo de apostas e levada ao extremo na vida de milhares. Nosso pa\u00eds vive uma epidemia de <em>bet\u2019s <\/em>(apostas), segundo o Banco Central, s\u00f3 em janeiro 24 milh\u00f5es de brasileiros fizeram um \u201c<em>pixzinho<\/em>\u201d para alguma casa de apostas. Os mesmos dados denunciam que o jogo \u00e9 maior entre os jovens de 20 a 30 anos (trabalhadores, apostando a compensa\u00e7\u00e3o de seus suores). Huizinga estava certo, a busca pelo outro universo por meio do jogo, levou o brasileiro \u00e0 distopia, \u00e0 ilus\u00e3o da riqueza f\u00e1cil.<\/p>\n<p>O rei Midas, na mitologia grega, queria que seu toque fizesse tudo ser ouro, e o deus Dion\u00edsio o concebeu a gra\u00e7a, cada coisa ou pessoa tangida por suas m\u00e3os foi transformada em ouro, sua comida, sua casa, e sua fam\u00edlia. Midas perdeu a paz, o desejo virou maldi\u00e7\u00e3o. O mito acima carrega em si o fim da gan\u00e2ncia: <strong>solid\u00e3o e pen\u00faria<\/strong>. Destarte, de <em>homo ludens, <\/em>os brasileiros, amantes do futebol, do v\u00f4lei, do basquete, dos esportes, dos jogos, s\u00e3o transmutados em <em>homo midas, <\/em>fadados ao fracasso.<\/p>\n<p><strong><em>*<\/em><\/strong>\u00a0<strong><em>Marcos Henrique Prud\u00eancio da Silva\u00a0<\/em><\/strong><em>\u00e9 ge\u00f3grafo, mestre pela\u00a0UFMS, graduando em\u00a0Filosofia pela Uninter\u00a0e experiente educador com atua\u00e7\u00e3o em\u00a0Tr\u00eas Lagoas e Andradina. Prud\u00eancio trar\u00e1 para nossas p\u00e1ginas an\u00e1lises profundas sobre\u00a0geopol\u00edtica, geoeconomia, desenvolvimento regional e filosofia.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>*\u00a0Marcos Henrique Prud\u00eancio da Silva &nbsp; Na era colonial a domina\u00e7\u00e3o do povo explorado passava pela brutalidade do belicismo (guerras, mortes, viol\u00eancia sexual) e da desgra\u00e7a da escravid\u00e3o, em tempos de p\u00f3s-globaliza\u00e7\u00e3o, o colonialismo assume o formato digital. 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