Audiência pública resulta em projeto de lei para combate à violência contra a mulher em Três Lagoas

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 Na noite de quinta-feira (12), o Plenário da Câmara de Três Lagoas foi palco de uma audiência pública dedicada a um dos temas mais sensíveis da atualidade: a violência contra a mulher e o feminicídio. O evento, proposto pelo vereador Fernando Jurado, reuniu especialistas da saúde, da segurança pública, da assistência social e sobreviventes de abusos para traçar um panorama da crise e buscar soluções legislativas.

“Motivo de grande satisfação realizar esta audiência pública. Espero que seja um evento que traga bastante informações e possamos iniciar uma discussão, que comece aqui, mas que não termine aqui. E que a gente possa trazer soluções para transformar nossa cidade em uma cidade menos violenta possível a esta questão que assola nossa sociedade, que é a violência contra a mulher”, destacou Fernando Jurado ao abrir o evento.

A presidente da Casa da Mulher, Marisa Oliveira, também mencionou a importância do debate: “Infelizmente, neste ano nosso município já registrou um homicídio. Esta audiência pública trata-se de um espaço público, onde toda a comunidade vai poder debater e discutir e acredito que nós vamos sair daqui bem mais fortalecidas”.

Dados alarmantes

A enfermeira e empreendedora Paula Regina de Souza abriu o debate com dados que chocam. Segundo o relatório da ONU Mulheres citado por ela, cerca de 85 mil mulheres foram assassinadas no mundo em 2025, sendo 51 mil por parceiros ou familiares.

“O Brasil está no topo do ranking. São aproximadamente quatro mulheres mortas por dia no país. Mato Grosso do Sul está entre os seis estados com maior taxa de feminicídios”, alertou Paula, destacando que a violência não afeta apenas a vítima, mas gera um impacto geracional: “70% das vítimas deixam filhos ou dependentes”.

O perfil do agressor e o início silencioso dos abusos

A delegada da Delegacia de Atendimento à Mulher (DAM), Dra. Sayara Quinteiro Martins Baetz, trouxe uma reflexão técnica sobre o perfil do agressor e o início silencioso dos abusos. Segundo ela, a violência doméstica é como um “veneno que mata aos poucos”.

“A violência doméstica não começa com um soco; ela dá sinais. O controle vem disfarçado de cuidado e o ciúme é vendido como prova de amor. O amor saudável te faz crescer, não desaparecer”, pontuou a delegada.

Dra. Sayara também mencionou a recente sanção da Lei 6.552, que prevê a criação de um cadastro público de agressores condenados em Mato Grosso do Sul: “Agora, o site da SEJUSP terá um banco de dados com nome e foto. É um instrumento para evitar que mulheres entrem em relações com agressores já condenados”.

A saúde como porta de entrada

A assistente social da UPA, Lidiane Ferreira Ramos, falou sobre acolhimento e encaminhamento das vítimas. Ela destacou que o sistema de saúde é, muitas vezes, o primeiro local onde a violência é detectada.

“A UPA é a porta de entrada. Recebemos mulheres com espancamentos, mas também com crises de pânico e ansiedade. Notificar no sistema (SINAN) não é apenas preencher papel, é dar visibilidade para que o poder público crie políticas efetivas”, explicou Lidiane.

O grito das sobreviventes: “A Justiça falha”

Um dos momentos mais emocionantes da noite foi o depoimento de Jaqueline, vítima de violência que expôs as falhas do sistema judicial. Ela criticou a impunidade e a leveza das penas.

“O agressor não vem com cara de monstro, ele vem vestido de príncipe. O pior abuso é o psicológico. Meu agressor ficou 28 dias preso e ria dentro da cadeia. Para a vítima, a pena é uma piada”, desabafou Jaqueline.

Ela reforçou a necessidade de campanhas voltadas aos homens: “Nós somos as vítimas, mas quem precisa aprender são eles. Por que as campanhas não são direcionadas para quem agride?”.

Elaine de Oliveira, usuária do Centro de Referência de Atendimento à Mulher (CRAN), também compartilhou sua jornada de 18 anos de abusos e a importância do acolhimento: “O CRAN me ajudou a me libertar do medo do julgamento da sociedade. Lá a gente aprende que é livre”.

A psicanalista Raquel dos Santos Silva encerrou as falas técnicas destacando que a violência tem origem na base familiar e até mesmo entre amigos. Ocorre no trabalho, dentro da igreja, na comunidade e, principalmente, dentro de casa — é uma violência que começa nas palavras, antes de chegar às agressões. Por fim, ela ressaltou que “o silêncio protege o agressor e o acolhimento protege a mulher”, reforçando que a comunidade deve ouvir sem julgar.

Projeto de Lei com QR Code

Ao final, o vereador Fernando Jurado anunciou que a audiência resultará na proposição de um Projeto de Lei (PL) para a instalação de QR Codes em locais públicos da cidade. O código dará acesso a um e-book educativo, construído em parceria com a Dra. Sandra Jurado e Paula Souza, detalhando tipos de violência e canais de denúncia.

“O meu papel aqui é abrir esse espaço para que a gente possa avançar e diminuir esses números negativos. Queremos que essa audiência vire lei e faça diferença real na vida das mulheres de Três Lagoas”, concluiu o vereador.

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