Uma investigação iniciada há oito meses pela Polícia Civil do Paraná (PCPR) resultou no desmantelamento de uma organização criminosa especializada no tráfico interestadual de drogas que era comandada de dentro do sistema prisional de Mato Grosso do Sul. A Operação Matrioska, deflagrada nesta semana com apoio do Departamento de Repressão à Corrupção e ao Crime Organizado de Mato Grosso do Sul (Dracco-MS), cumpriu 24 mandados de prisão preventiva e 34 de busca e apreensão domiciliar em sete municípios de três estados.
O líder da quadrilha, um detento custodiado em Campo Grande que cumpre pena por feminicídio desde maio de 2018, conseguira manter o controle das atividades criminosas por meio do uso de aparelhos celulares dentro da unidade prisional. Durante o cumprimento dos mandados na cela do investigado, os agentes encontraram nada menos que sete telefones móveis, confirmando a capacidade do preso de seguir orchestrando o esquema mesmo atrás das grades.
“Ele conseguia coordenar o grupo da cadeia por meio do uso de celulares, com os comandos sendo repassados por ligações ou troca de mensagens”, explicou a delegada Franciela Alberton, responsável pelas investigações no Paraná. Segundo ela, o preso – que também tem passagens por roubo e tráfico – era responsável por determinar rotas de transporte, coordenar a distribuição de drogas e gerenciar o fluxo financeiro por meio da utilização de contas bancárias de “laranjas”.
O que levou a Polícia Civil ao esquema foi, inicialmente, um caso que parecia isolado. Em agosto do ano passado, uma mulher foi presa em flagrante no município de Realeza (PR) transportando mais de dois quilos de crack em um ônibus de linha.
“A partir dessa prisão, iniciamos as investigações e constatamos que o ‘buraco era mais embaixo'”, relatou a delegada. “Aquela apreensão, que poderia parecer um caso isolado, na verdade correspondia a uma estrutura hierarquizada voltada à aquisição, transporte, armazenamento, distribuição e comercialização de entorpecentes, especialmente crack e cocaína, além da movimentação e ocultação de ativos financeiros.”
As investigações revelaram que a droga era oriunda de Mato Grosso do Sul e seguia para o município de Pato Branco (PR) utilizando uma estratégia específica: mulheres viajavam em ônibus de linha, muitas vezes acompanhadas dos próprios filhos, para despistar a fiscalização – as chamadas “mulas”.
Um dado que chama atenção na Operação Matrioska é o expressivo número de mulheres envolvidas. Mais da metade dos presos são do sexo feminino e exerciam funções estratégicas dentro da organização criminosa, atuando na logística, transporte, distribuição e até na gestão financeira do esquema.
A estrutura hierarquizada do grupo foi minuciosamente mapeada pelos investigadores, que confirmaram a atuação do preso como líder máximo, responsável pelas decisões estratégicas e pelo fluxo financeiro. Abaixo dele, uma rede de colaboradores cuidava das diferentes etapas do negócio ilegal.
A delegada não precisou há quanto tempo o grupo atua no ramo do tráfico, limitando-se a dizer que a quadrilha “age há bastante tempo, com vinculações estabelecidas em Pato Branco”, cidade da região sudoeste do Paraná que funcionava como principal base de distribuição.
A operação mobilizou forças policiais em três estados para cumprir as 58 ordens judiciais expedidas. Os mandados foram executados nos municípios de Pato Branco, Clevelândia, Mariópolis, Cascavel e Quedas do Iguaçu, no Paraná; Concórdia, em Santa Catarina; e Campo Grande, capital sul-mato-grossense.
Somente em Mato Grosso do Sul, foram cumpridos dois mandados de prisão preventiva e dois de busca e apreensão. O apoio do Dracco-MS foi fundamental para a execução das diligências no estado, que além de sediar o comando da organização, também é apontado como principal rota de origem da droga comercializada pelo grupo.
Além das prisões e apreensões, a Justiça determinou o bloqueio e sequestro de ativos financeiros dos investigados, medida que visa interromper o fluxo de recursos provenientes do tráfico e possibilitar futura reparação aos cofres públicos.
Todos os presos na Operação Matrioska deverão responder pelos crimes de tráfico de drogas, associação para o tráfico e lavagem de dinheiro. A Polícia Civil do Paraná informou que as investigações prosseguem com a análise minuciosa dos materiais apreendidos.
“Continuamos trabalhando na análise de todo o material recolhido durante as buscas, visando à completa responsabilização criminal dos envolvidos”, afirmou a delegada Franciela Alberton, não descartando a possibilidade de que novos integrantes da organização criminosa sejam identificados a partir das provas obtidas.
A Operação Matrioska expõe mais uma vez a relevância de Mato Grosso do Sul e Paraná no cenário do tráfico de drogas no Brasil. Segundo indicadores do Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP), com base em números da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública de Mato Grosso do Sul (Sejusp), o Brasil confiscou 1,6 mil toneladas de drogas no ano passado.
Desse total, os dois estados foram responsáveis por cerca de 990 toneladas apreendidas – o equivalente a 61,87% de tudo o que foi confiscado no País. Para dimensionar a influência da região, o Brasil apresentou uma média diária de 4,4 toneladas de drogas apreendidas em 2023. Mato Grosso do Sul contribuiu com 1,16 tonelada por dia, enquanto o Paraná respondeu por 1,5 tonelada diária.
Os números expressivos refletem a posição geográfica estratégica dos dois estados, que fazem fronteira com países produtores e estão em rotas que conectam o interior do continente aos grandes centros consumidores do Sudeste e Sul do Brasil.
A Operação Matrioska representa mais um golpe contra essa engrenagem criminosa, desarticulando uma organização que, mesmo com seu líder atrás das grades, mantinha ativo um esquema de tráfico que abastecia cidades do interior paranaense com drogas vindas de Mato Grosso do Sul.











