Qua, 24 de Junho
MOVIMENTO

Quando a dança é remédio: a história de Làylah Nur e o poder da expressão corporal

24 jun 2026 - 13h50   Thaís Dias   atualizado às 13h55
Quando a dança é remédio: a história de Làylah Nur e o poder da expressão corporal O Studio NUR: onde a luz é reencontrada

Houve um tempo em que Làylah Nur era apenas Ana Maria, uma menina que aprendeu cedo a observar as pessoas. Enquanto outras crianças corriam sem destino, ela ficava, contemplava, tentava decifrar os gestos, os olhares, os silêncios que escapavam às palavras. "Sempre fui curiosa sobre o que nos torna humanos", confessa.

Essa curiosidade inicial se transformou em fio condutor de uma vida inteira. Ela seria arquiteta e urbanista, professora, pesquisadora, mestre em Geografia, educadora. Mas nenhum diploma, nenhum cargo, nenhum título conseguiria conter a pergunta que a acompanhava como uma sombra luminosa: o que faz uma pessoa florescer mesmo depois de atravessar momentos difíceis?

A resposta veio aos poucos, como um despertar. Não seria encontrada apenas nos livros — embora eles fossem importantes —, mas no movimento. Na dança. Na arte. Naquilo que escapa à razão e toca o que há de mais profundo em cada ser.

Foi assim que Ana Maria tornou-se Làylah Nur. E Nur, como ela mesma explica, significa "luz". Não por acaso. "Acredito que existe uma luz em cada ser humano. Às vezes ela brilha intensamente. Outras vezes fica escondida sob as exigências da vida, as inseguranças, os medos, as perdas ou as marcas deixadas pelo tempo."

A Dança do Ventre e a Dança Cigana tornaram-se os veículos dessa crença. Em cada movimento de quadril, em cada giro, em cada ondulação, Làylah Nur descobriu que a dança é mais do que técnica: é linguagem ancestral, é memória que se desenrola no corpo, é oração em movimento.

Em Três Lagoas, nasceu o Studio NUR. Não um estúdio qualquer, mas um espaço onde mulheres são convidadas a se reconectar com a própria história. Aqui, os movimentos ensinados não são coreografias vazias: carregam o peso simbólico de um reencontro.

"Mais do que aprender passos, elas encontram um ambiente de acolhimento, pertencimento e expressão. São convidadas a reconhecer sua força e reconstruir a relação com o próprio corpo de forma respeitosa e amorosa."

Làylah Nur — que além de artista é mãe de duas meninas que diariamente a ensinam sobre amor, presença e recomeços — compreende que a transformação verdadeira não acontece de fora para dentro. Ela emerge, como uma flor que rompe o asfalto.

Dançaterapia e Arteterapia: a arte como cura

Nos últimos anos, essa compreensão se aprofundou. O olhar de Làylah Nur tornou-se mais clínico, mais sensível, mais inteiro. Com pós-graduações em Arteterapia, Dançaterapia e Docência no Ensino da Dança, além de estudos contínuos sobre comportamento humano e psicanálise, ela ampliou seu campo de atuação.

A Dançaterapia, explica ela, nasce da compreensão de que o corpo fala. "Ele guarda lembranças, emoções, experiências e sentimentos que muitas vezes não conseguem ser traduzidos em palavras. Através do movimento consciente, da respiração, da escuta corporal e da expressão simbólica, a dança torna-se uma ferramenta de autoconhecimento, fortalecimento emocional e reconexão consigo mesmo."

A Arteterapia segue o mesmo fio condutor. Desenhos, pinturas, colagens, escrita, modelagem — não é necessário saber desenhar ou pintar. O mais importante, garante Làylah Nur, é permitir que a arte se torne uma ponte entre aquilo que sentimos e aquilo que ainda estamos aprendendo a compreender.

Talvez nenhum lugar reflita tão bem essa missão quanto o trabalho voluntário que Làylah Nur realiza junto à Rede Feminina de Combate ao Câncer de Três Lagoas.

Ali, a dança ultrapassa os limites da arte e transforma-se em acolhimento. Mulheres que enfrentaram tratamentos, perdas e desafios profundos encontram um espaço para fortalecer a autoestima, reconstruir vínculos com o próprio corpo e reconhecer novamente sua beleza, sua dignidade e sua potência.

"É ali que eu vejo o propósito de tudo o que faço", diz ela, com a voz embargada. "Ver uma mulher que passou por uma mastectomia, que perdeu os cabelos, que enfrentou a dor e a incerteza, redescobrir-se bonita, inteira, viva... Isso não tem preço."

Làylah Nur é muitas. É a menina observadora, a artista, a professora, a pesquisadora, a mãe, a esposa, a terapeuta. Cada uma dessas facetas contribuiu para quem ela é hoje. Mas nenhuma delas, isoladamente, a define.

"Hoje compreendo que todos os caminhos que percorri me conduziram para o mesmo lugar: o encontro humano."

O Studio NUR nasceu da dança, mas seu propósito vai muito além dela. É um espaço onde arte, cultura, acolhimento e desenvolvimento humano caminham juntos. Um lugar onde cada movimento, cada criação e cada experiência representam um convite para que as pessoas possam voltar a si mesmas.

"Porque antes de sermos profissionais, somos pessoas. E talvez a maior transformação que possamos promover na vida de alguém aconteça quando oferecemos presença, escuta e a oportunidade de lembrar quem ela realmente é."

Em tempos de tanta pressa, de tantas exigências, de tantas distrações, Làylah Nur nos lembra que a verdadeira revolução começa com um gesto simples: olhar para dentro. Respirar. Mover-se. Expressar-se. Reencontrar-se.

Não é à toa que seu nome artístico carrega a palavra "Nur". Porque a luz que ela acredita existir em cada ser humano, ela mesma a irradia — no brilho dos olhos de suas alunas, no sorriso das mulheres que enfrentaram o câncer, na entrega generosa de quem entendeu que a arte, a ciência e o amor não são caminhos separados, mas um único fio que tece a teia da vida.

Làylah Nur, Ana Maria dos Santos Bononi — muitas em uma só — segue dançando. E ao dançar, ensina. E ao ensinar, cura. E ao curar, transforma. Porque, no fim das contas, sua história não é sobre ela. É sobre cada pessoa que cruza seu caminho e descobre, através da arte e do acolhimento, que também é luz.

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