Contrato da retomada assinado
A equipe do Expressão MS esteve no aeroporto de Três Lagoas acompanhando a chegada do comboio presidencial para a cerimônia de assinatura dos contratos da Unidade de Fertilizantes Nitrogenados III (UFN-III). O movimento no local foi intenso desde as primeiras horas da manhã desta quinta-feira (25), com a presença de autoridades, imprensa e equipes de segurança.
O clima era de expectativa entre os presentes, que aguardavam a chegada do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, acompanhado de sua comitiva. O esquema de segurança foi reforçado, com viaturas da Polícia Rodoviária Federal, Polícia Militar e agentes do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) posicionados em pontos estratégicos do aeroporto.
A comitiva presidencial desembarcou por volta das 08h, momento em que o aeroporto de Três Lagoas foi isolado para a passagem do comboio. O presidente seguiu em carro fechado, com vidros escuros, sob forte esquema de escolta, em direção ao local da cerimônia.
Durante a espera, assessores e membros da organização do evento circulavam pelo saguão, confirmando os últimos detalhes da programação. O Expressão MS acompanhou cada momento da movimentação, registrando a presença de ministros de Estado, parlamentares e representantes do governo estadual que já estavam no local aguardando o início solene.
Em cerimônia, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou os contratos para a conclusão da planta da Unidade de Fertilizantes Nitrogenados III, em Três Lagoas. O empreendimento integra o Novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e receberá investimentos de mais de R$ 5 bilhões para ser finalizado.
Paralisada desde 2015, a unidade teve sua retomada confirmada pela Petrobras após nova reavaliação técnica e econômica que atestou a viabilidade do projeto e sua aderência ao Plano de Negócios 2026-2030 da companhia.
"Agora vai. Era pra ter começado bem antes", avaliou Lula durante a cerimônia, diante de uma plateia composta por autoridades, trabalhadores da construção civil e representantes do setor produtivo.
"Podem ficar certos, esse país vai construir sua soberania, sendo independente de importação de fertilizantes dos outros países. É apenas esperar que a gente vai ver o que vai acontecer", completou o presidente, arrancando aplausos dos presentes.
O chefe do Executivo também destacou que o governo não exerce ingerência sobre a Petrobras, mas não abre mão de discutir estrategicamente seu papel no país. "Vira e mexe, aparece um governante nesse país que quer vender a Petrobras, que faz denúncia e acusa ser uma empresa deficitária. Quando eles percebem que não vão poder vender a Petrobras, eles começam a vender pedaço", declarou, em referência a tentativas de privatização da estatal em gestões anteriores.
Simone Tebet: "Vamos chegar a 30% e podemos dobrar essa fase"
A ex-ministra do Planejamento e Orçamento, Simone Tebet, esteve presente na cerimônia e concedeu entrevista coletiva à imprensa, na qual destacou a dimensão do projeto e o potencial de expansão da produção nacional de fertilizantes.
"Sem dúvida. A depender do gasto no futuro, nós podemos estar dobrando essa fase. Lembre-se, nós hoje temos 15%
de produção, vamos chegar a 30%. Se nós dobrarmos, a gente chega a 45%. Olha a dimensão, o tamanho da produção dessa fase", afirmou a ministra, enfatizando o impacto estratégico do empreendimento para o Brasil.
Questionada sobre a situação do aeroporto de Três Lagoas e possíveis investimentos, Tebet respondeu: "Está na concessão do aeroporto de Brasília", indicando que as tratativas seguem em andamento em outras esferas do governo federal.
A ministra também foi perguntada sobre declarações do prefeito de Três Lagoas, que teria afirmado publicamente que não há recursos federais destinados ao município. Tebet rebateu a afirmação com firmeza:
"Ele me aguarda, para abordarmos o assunto e resolver o problema de comércio com a empresa, para nós adobarmos que daqui uns 15, 20 dias vai ser retomado, que é óbvio, 100% federal. Então, sim, eu vou responder ao prefeito."
A ministra reforçou que os investimentos federais em Três Lagoas são uma realidade e que o diálogo com a administração municipal será mantido para resolver eventuais pendências.
Barbosinha: "UFN-III coloca o Brasil em um novo patamar"
O vice-governador de Mato Grosso do Sul, José Carlos Barbosa — o Barbosinha — também participou da cerimônia e concedeu entrevista ao Expressão MS, na qual celebrou a retomada do empreendimento e destacou seus impactos para o estado e para o país.
"Representa para o Mato Grosso do Sul, para os nossos estados vizinhos e representa muito para o Brasil, o que significa menor dependência da importação de fertilizantes, maior competitividade dos nossos produtores. A guerra agora demonstrou a necessidade que o Brasil tem de avançar na questão da necessidade de fabricação dos nitrogenatos. A ureia, por exemplo, que é um dos produtos mais consumidos. Durante a guerra da Ucrânia, agora, nós tivemos imensa dificuldade", afirmou Barbosinha.
O vice-governador também detalhou os números do projeto: "Portanto, a gente fica muito feliz e celebra a tomada dos investimentos, temos mais de 5 milhões de investimentos, mais de 8 mil empregos, 80% da obra já concluída. A gente espera que, com o seu término, a gente possa efetivamente ter essa produção, além de significar também o maior bombeamento do gás boliviano, 2 milhões e 200 mil metros públicos de gás consumidos por dia."
Quando questionado pelo Expressão MS sobre a possibilidade de uma segunda unidade no futuro, Barbosinha foi enfático:
"Olha, eu penso que, inclusive, nós temos espaço aqui para a ampliação desse investimento. Eu acredito muito, porque aqui vai ser responsável 15% da produção nacional. Somando, nós teremos aí em torno de 25% da necessidade. Ainda, uma necessidade de importação em torno de 75%. Então, eu penso que isso é uma questão estratégica para o Brasil."
O vice-governador também abordou os motivos que levaram à paralisação da obra em 2015: "A questão que, inclusive, levou à paralisação dessa fábrica foi a análise da lógica do preço no mercado internacional. Só que, na medida em que você não tem independência, a tendência natural é você se submeter ao preço dos consumidores, dos fornecedores, da forma que eles melhoram a produção."
Barbosinha destacou ainda a parceria institucional entre o governo estadual e o governo federal: "Mato Grosso do Sul tem várias parcerias com o governo federal. Não é apenas aqui na fábrica de nitrogenado. No setor de habitação, são inúmeras casas construídas. No setor de saneamento, o leilão da Malha Oeste, da nossa ferrovia, que é fundamental para o desenvolvimento do estado. A rota bioceânica, a consolidação da rota bioceânica. Tudo isso são parcerias com o governo do Mato Grosso do Sul e, institucionalmente, com o governo federal."
Durante a coletiva, Barbosinha foi questionado sobre a concessão de rodovias federais no estado, incluindo a BR-262. Ele explicou que já houve avanços significativos: "Na verdade, já houve a concessão da rota da Celulose em torno de 870 quilômetros e o governo federal autorizou que a 262 e 267, trechos de rodovias federais, pudessem ser concessionadas junto com trechos de rodovia estadual também."
Perguntado sobre a possibilidade de expansão das concessões para outras rodovias, o vice-governador respondeu: "Não, não no momento. No momento não existe nenhuma outra negociação no sentido de concessão de rodovias."
Impactos para Três Lagoas: "dores do crescimento"
Barbosinha também falou sobre os desafios que a chegada da UFN-III trará para a infraestrutura de Três Lagoas, especialmente com a previsão de chegada de milhares de trabalhadores para a obra.
"E com a chegada da UFN-3, também investimentos na infraestrutura deverão ser feitos. Chegarão os grandes trabalhadores aqui para essa obra. Três Lagoas está acostumada aos grandes empreendimentos. Ela já passou há vários anos pela implantação da maior unidade de linha contínua do mundo, a Eldorado. Então é uma cidade que já tem a vivência. Mas não tem dúvida nenhuma que cada vez que você tem um empreendimento dessa natureza, nós temos as chamadas dores do crescimento. E o governo estadual é parceiro dos municípios para ajudar os prefeitos a fazer os investimentos necessários na área de saúde, na área de educação, na área de segurança pública. O Estado cresce como um todo e junto com o crescimento tem as demandas", afirmou.
Ele concluiu destacando o papel estratégico da retomada: "Olha, ela proporciona maior produtividade para o setor do agro, reduz a dependência do Brasil da importação de nitrogenados, notadamente a ureia. Então ela coloca o Brasil no patamar. Obviamente que a nossa dependência ainda é muito grande. Aqui vai representar 15% da necessidade nacional. Então é a maior unidade do país. Somada com as outras, nós teríamos em torno de 25% de fabricação de nitrogenato no Brasil e ainda em torno de 70%, mais de 70% de necessidade de importação desses produtos."
Deputada Camila Jara celebra retomada em entrevista exclusiva
Em entrevista com exclusividade ao Expressão MS, a deputada federal Camila Bazachi Jara Marzochi (PT-MS) destacou a importância histórica da retomada da UFN-III para Três Lagoas e para todo o estado.
"A retomada da UFN-III é um marco para Mato Grosso do Sul e, especialmente, para Três Lagoas. Estamos falando de mais de R$ 5 bilhões em investimentos e cerca de 8 mil empregos diretos e indiretos que vão movimentar a economia local e regional. Essa obra é estratégica não apenas para o nosso estado, mas para todo o país", afirmou a deputada.
Camila Jara, nascida em 10 de fevereiro de 1995, é a deputada federal mais jovem da história de Mato Grosso do Sul, eleita em 2022 com 56.552 votos.
"Como representante de Mato Grosso do Sul em Brasília, sei o quanto essa obra era esperada. A UFN-III estava paralisada desde 2015, e a retomada agora demonstra o compromisso do governo federal com o desenvolvimento regional e com a soberania nacional. Quando a unidade entrar em operação em 2029, vamos produzir cerca de 1,3 milhão de toneladas de ureia por ano, reduzindo nossa dependência de importações e fortalecendo a segurança alimentar do Brasil", completou a deputada.
A parlamentar ressaltou os benefícios sociais do empreendimento. "Além dos empregos diretos, a UFN-III vai impulsionar o comércio, os serviços e a infraestrutura da região. É um projeto que vai transformar a realidade de Três Lagoas e de todo o entorno."
Impactos na economia e na produção nacional
Quando entrar em operação comercial, prevista para 2029, a unidade terá capacidade para produzir 3,6 mil toneladas diárias de ureia granulada e 2,2 mil toneladas diárias de amônia, totalizando cerca de 1,3 milhão de toneladas de ureia por ano — volume equivalente a aproximadamente 16% da demanda nacional pelo insumo.
As obras devem gerar aproximadamente 8 mil postos de trabalho diretos e indiretos, além de impulsionar a economia regional por meio da contratação de fornecedores e da movimentação dos setores de serviços, transporte, hospedagem, alimentação e comércio.
A localização da fábrica em Três Lagoas é considerada estratégica. O Centro-Oeste responde por cerca de 40% da demanda brasileira de ureia, impulsionada principalmente pelas culturas de milho, cana-de-açúcar, algodão e pastagens. A proximidade da unidade com importantes polos produtores agrícolas deve ampliar a confiabilidade do abastecimento e reduzir custos logísticos para produtores rurais, especialmente nos estados de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Paraná e São Paulo.
A retomada da UFN-III integra uma estratégia mais ampla do governo federal e da Petrobras para reconstruir a capacidade nacional de produção de fertilizantes nitrogenados. A carteira de fertilizantes da Petrobras no Novo PAC reúne quatro unidades: Fafen-BA, Fafen-SE, ANSA e UFN-III. Com a entrada em operação dessas plantas, a estatal projeta atender cerca de 35% do mercado nacional de ureia até 2029. Antes da retomada das fábricas, 100% da ureia consumida no país era importada.
O fortalecimento da produção nacional de fertilizantes busca reduzir a vulnerabilidade externa do Brasil diante de crises internacionais e interrupções nas cadeias globais de suprimentos. A guerra na Ucrânia, por exemplo, evidenciou os riscos da dependência externa ao afetar a oferta global de insumos e pressionar os preços internacionais dos fertilizantes.
A cerimônia em Três Lagoas marcou a mobilização do empreendimento e a assinatura dos principais contratos para a conclusão da planta, consolidando a retomada de um projeto 100% Petrobras. Com a presença de ministros, parlamentares, autoridades estaduais e municipais, o evento reforçou o compromisso do governo federal com a soberania nacional na produção de insumos estratégicos para o agronegócio brasileiro.
O presidente Lula encerrou sua participação com um tom otimista: "Este é um país que vai dar certo. A gente só precisa ter paciência e acreditar no trabalho que a gente está fazendo. A UFN-III é a prova de que quando o governo federal, os estados e os municípios trabalham juntos, as coisas acontecem."