Qui, 09 de Julho
JUSTIÇA

Judiciário de MS acelera julgamentos de feminicídio e registra 162 processos após mudança no Código Penal

09 jul 2026 - 09h29   Thaís Dias   atualizado às 09h36
Judiciário de MS acelera julgamentos de feminicídio e registra 162 processos após mudança no Código Penal vitimas feminicidio MS

Desde que entrou em vigor a mudança que tornou o feminicídio um crime autônomo no Código Penal, em 9 de outubro de 2024, o Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul (TJMS) realizou 162 julgamentos de processos relacionados a esse tipo de crime. Do total, 32 julgamentos ocorreram ainda em 2024, depois da entrada em vigor da nova regra. Em 2025, foram 84 casos julgados, e em 2026, até o dia 7 de julho, outros 46 julgamentos foram realizados.

Campo Grande concentra o maior número, com 41 processos julgados. Em seguida aparecem Três Lagoas, com 12, Dourados, com 11, e Naviraí, também com 11.

A mudança na legislação alterou a forma como o feminicídio é tratado no Brasil. Antes, ele era considerado uma forma mais grave de homicídio, ou seja, uma qualificadora que aumentava a pena, mas o crime continuava sendo registrado como homicídio. Desde outubro de 2024, o feminicídio passou a ser um crime próprio, separado do homicídio, e recebeu uma pena específica de 20 a 40 anos de prisão.

A legislação considera feminicídio a morte de uma mulher em situações de violência doméstica ou familiar, ou quando o crime é motivado por desprezo ou discriminação pelo fato de a vítima ser mulher. Por isso, nem toda morte violenta de uma mulher é automaticamente considerada feminicídio.

A proposta que contribuiu para essa mudança teve participação do juiz Carlos Alberto Garcete, da 1ª Vara do Tribunal do Júri de Campo Grande. Segundo o magistrado, a ideia surgiu após anos de estudos e da experiência acumulada durante julgamentos realizados pelo Tribunal do Júri. O estudo foi apresentado ao então deputado federal Fábio Trad, que protocolou o primeiro projeto sobre o tema no Congresso Nacional.

Segundo Garcete, antes da mudança os jurados precisavam decidir se o assassinato de uma mulher deveria ou não ser considerado feminicídio. Na prática, isso significava que, mesmo em casos envolvendo violência contra a mulher, essa característica poderia ser retirada durante o julgamento.

"Quando se tratava de uma qualificadora do crime de homicídio, era preciso perguntar aos jurados se eles entendiam que o homicídio havia sido qualificado por feminicídio. E aí entra um problema muito sério, que é o machismo estrutural presente na sociedade brasileira. Em muitos julgamentos havia o afastamento da qualificadora, o que vai em direção contrária ao que se busca no enfrentamento dessa violência", explicou.

Com a nova regra, o feminicídio passou a ter uma definição própria. "Hoje o crime de feminicídio tem o seu DNA, tem a sua identidade própria, é um crime autônomo. No júri não se pergunta mais se a morte da mulher é um feminicídio ou não. Foi uma virada importante dentro desse trabalho de conscientização e de enfrentamento à violência contra a mulher", destacou o juiz.

Fábio Trad também afirmou que a mudança buscou reconhecer que o feminicídio possui características próprias e não deve ser tratado apenas como uma forma mais grave de homicídio.

"Quando propus, em 2020, que o feminicídio deixasse de ser mera qualificadora do homicídio para se tornar crime autônomo, o objetivo era dar nome próprio a uma violência que tem raiz própria: o ódio à condição de mulher. A Lei 14.994/2024 não apenas endureceu a pena, ela reconheceu, no texto da lei, que matar uma mulher por ser mulher é um crime com identidade jurídica distinta. Isso muda a forma como a polícia investiga, como o Judiciário julga e como a sociedade enxerga o problema", afirmou.

Além da punição aos responsáveis, o juiz Carlos Alberto Garcete defende que o enfrentamento ao feminicídio também depende de prevenção e informação constante à sociedade.

"Sobre a questão do feminicídio, é importante lembrar que se trabalha no combate a esse tipo de violência por meio de dois pilares. Primeiro, o da prevenção e da conscientização. É fundamental que a sociedade civil, a imprensa e todos os veículos de comunicação falem constantemente sobre esse tema. O segundo é a questão repressiva ao crime, ou seja, depois de ocorrido o feminicídio", concluiu.

Casos emblemáticos julgados no período

Entre os 162 julgamentos realizados desde outubro de 2024, estão casos que causaram forte repercussão em Mato Grosso do Sul e expuseram diferentes formas de violência contra mulheres.

Giseli Cristina Olikowski (34 anos) – Morta pelo então namorado, Jefferson Nunes Ramos, em Campo Grande. Ele foi condenado, em agosto de 2025, a 38 anos e três meses de prisão. O julgamento foi um dos primeiros no estado realizado já sob a nova regra.

Mariza Pires (66 anos) – Morta pelo próprio filho, Diego Pires de Souza, em dezembro de 2024, no Parque Residencial União, em Campo Grande. Ele foi condenado, em agosto de 2025, a 31 anos e seis meses de prisão.

Vanessa Eugênia Medeiros (23 anos) e a filha Sophie Eugênia (10 meses) – Mortas por João Augusto Borges em Campo Grande. Ele foi condenado, em maio de 2026, a 67 anos e seis meses de prisão pelas duas mortes. O crime provocou comoção pela idade das vítimas e pelas circunstâncias do caso.

Leisa Aparecida Cruz (40 anos) – Assassinada em Anastácio pelo professor Edson Campo Delgado, que foi condenado a 30 anos e seis meses de prisão em maio de 2026, pouco mais de dois meses depois do crime.

Alessandra da Silva Arruda (30 anos) – Morta em Nioaque por Venilson Albuquerque Marques, que foi condenado, em junho de 2026, a 28 anos de prisão. A vítima estava grávida e deixou três filhos. O crime ocorreu em março de 2025.

Os casos mostram que os julgamentos realizados no período envolvem crimes ocorridos tanto antes quanto depois da mudança na legislação, e refletem o esforço do Judiciário sul-mato-grossense em dar celeridade e rigor na resposta a esse tipo de violência.

Mais notícias
Mutirão da Saúde terá consultas por demanda espontânea nesta sexta-feira (10)
SAÚDE Mutirão da Saúde terá consultas por demanda espontânea nesta sexta-feira (10)
“Consegui realizar todos os exames que estava esperando há bastante tempo”, diz paciente atendido pelo Mutirão da Saúde
SAÚDE “Consegui realizar todos os exames que estava esperando há bastante tempo”, diz paciente atendido pelo Mutirão da Saúde
TRF-3 autoriza leilão de 196 veículos da PF em MS; lista tem Porsche, Hilux e BMW
LEILÃO TRF-3 autoriza leilão de 196 veículos da PF em MS; lista tem Porsche, Hilux e BMW
Brasilândia convoca população para revisão do Plano Diretor: "O futuro da cidade em nossas mãos"
BRASILANDIA Brasilândia convoca população para revisão do Plano Diretor: "O futuro da cidade em nossas mãos"
IFMS divulga resultado final e abre matrículas para cursos técnicos presenciais
TRÊS LAGOAS IFMS divulga resultado final e abre matrículas para cursos técnicos presenciais
Segundo dia do Mutirão da Saúde é marcado por agilidade, organização e aprovação da população; atendimentos seguem até sexta-feira (10)
SAÚDE Segundo dia do Mutirão da Saúde é marcado por agilidade, organização e aprovação da população; atendimentos seguem até sexta-feira (10)
Obras da escola do Montanini e do CEI de tempo integral, que criarão 645 novas vagas, seguem avançando em Três Lagoas
OBRAS Obras da escola do Montanini e do CEI de tempo integral, que criarão 645 novas vagas, seguem avançando em Três Lagoas
SEMED regulamenta atuação dos Profissionais de Apoio à Inclusão Escolar na REME
EDUCAÇÃO SEMED regulamenta atuação dos Profissionais de Apoio à Inclusão Escolar na REME
Secretaria Municipal de Educação lança 7ª edição do Prêmio Professor(a) da Infância
EDUCAÇÃO Secretaria Municipal de Educação lança 7ª edição do Prêmio Professor(a) da Infância
AEMS abre processo seletivo para professores nas áreas de Saúde e Educação Física
OPORTUNIDADE AEMS abre processo seletivo para professores nas áreas de Saúde e Educação Física
Mais Lidas
Três Lagoas se despede de Isaac, menino que emocionou milhares com sua história de fé
LUTO Três Lagoas se despede de Isaac, menino que emocionou milhares com sua história de fé
Dr. Cassiano Maia lança maior Mutirão da Saúde da história do município
SAÚDE Dr. Cassiano Maia lança maior Mutirão da Saúde da história do município
Justiça analisa pedido para interromper obras da ferrovia da Arauco na MS-112
JUSTIÇA Justiça analisa pedido para interromper obras da ferrovia da Arauco na MS-112
AEMS abre processo seletivo para professores nas áreas de Saúde e Educação Física
OPORTUNIDADE AEMS abre processo seletivo para professores nas áreas de Saúde e Educação Física