Qua, 15 de Julho
POLICIA

Gaeco revela que editora orientava prefeituras a fraudar contratações sem licitação em MS

15 jul 2026 - 08h01   Thaís Dias   atualizado às 09h03
Gaeco revela que editora orientava prefeituras a fraudar contratações sem licitação em MS Gaeco, Foto Divulgação

Uma investigação conduzida pelo Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco) e pelo Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS) revelou um esquema milionário de supostas fraudes em contratos públicos para a aquisição de livros paradidáticos. A Operação Gutenberg aponta que a Editora Avante movimentou cerca de R$ 27 milhões por meio de contratos considerados irregulares firmados com pelo menos 17 prefeituras sul-mato-grossenses.

Com sede em São Bernardo do Campo (SP), a Editora Avante iniciou suas atividades em 2021 e, já no ano seguinte, passou a fechar contratos com municípios de Mato Grosso do Sul. Conforme as investigações, a empresa orientava servidores municipais sobre como justificar contratações diretas, sem licitação, utilizando o argumento de que os materiais fornecidos eram de edição exclusiva.

De acordo com o Gaeco, a editora disponibilizava aos gestores públicos um verdadeiro roteiro para conduzir as contratações, incluindo modelos de documentos para todas as etapas do processo, desde o Estudo Técnico Preliminar até pareceres jurídicos, empenhos e notas fiscais. Na prática, documentos que deveriam ser produzidos pela administração pública eram direcionados pela própria empresa beneficiada.

As investigações apontam Rossana Paroschi Jafar como a principal integrante do grupo e proprietária de fato da Editora Avante, embora a empresa esteja registrada oficialmente em nome de sua nora, Rhayane Souza Fanaia. Também são apontados como integrantes da organização Heyder Bartz, responsável pela gestão estratégica do grupo e pela divisão dos valores recebidos, além de proprietário da empresa Superconteúdo Marketing Digital e atualmente foragido, e Francisco Anizio dos Santos, apontado como responsável pela movimentação financeira e operacional da editora, com acesso às contas bancárias e coordenação dos saques realizados por terceiros.

A quebra do sigilo telefônico revelou mensagens que, segundo o Ministério Público, demonstram a organização do repasse dos recursos logo após os pagamentos efetuados pelas prefeituras. Entre 2022 e 2024, a movimentação financeira da empresa chegou a aproximadamente R$ 27 milhões.

Outro ponto destacado pela investigação envolve o ex-chefe da regulação da Saúde de Mato Grosso do Sul, Ed Carlo Britto Burgatt, que está preso. Conforme o MPMS, ele utilizava sua influência na liberação de exames, cirurgias e vagas em hospitais da rede estadual para pressionar gestores municipais a contratar a Editora Avante.

Os primeiros contratos investigados foram firmados em 2022 e somam cerca de R$ 3 milhões. Entre eles estão Miranda, com R$ 1,044 milhão; Ivinhema, com R$ 874 mil, sendo inicialmente R$ 586 mil e posteriormente aditivado; Bonito, com R$ 818 mil; e Ladário, com R$ 459 mil.

A investigação também identificou contratos celebrados entre 2025 e 2026 com os municípios de Anaurilândia, no valor de R$ 232 mil; Japorã, de R$ 226 mil; Fátima do Sul, de R$ 244 mil; Deodápolis, com dois contratos de R$ 161 mil e R$ 313 mil; e Caarapó, no valor de R$ 589 mil. Dourados concentra o maior volume de contratações investigadas, estimado em aproximadamente R$ 13 milhões.

O rastreamento financeiro realizado pelo Gaeco identificou que, entre fevereiro e dezembro de 2022, foram realizados 23 saques que totalizaram cerca de R$ 1,06 milhão das contas da Editora Avante. Um dos episódios citados ocorreu em 2 de agosto de 2022, quando a Prefeitura de Miranda transferiu R$ 1,044 milhão para a empresa. No mesmo dia, Jessyca Duarte Burgatt, filha de Ed Carlo Burgatt, recebeu R$ 52 mil da editora e, segundo a investigação, repassou R$ 50 mil ao pai por meio de Pix.

Os investigadores também identificaram transferências para integrantes da família Jafar, entre eles a médica Olívia Paroschi Jafar, além da Gráfica CGR, empresa ligada a Felipe e Giovanni Paroschi Jafar.

Parte dos livros comercializados pela Editora Avante pertence à coleção "Mundo do Theo", publicada pela Editora Galeria das Letras e voltada à inclusão de pessoas neurodivergentes.

A Operação Gutenberg foi deflagrada em 7 de julho e cumpriu 16 mandados de prisão e 40 mandados de busca e apreensão em Mato Grosso do Sul, São Paulo e Goiás. Durante as diligências, foram apreendidos cerca de R$ 3 milhões em cheques e mais de R$ 200 mil em dinheiro em espécie. Giovanni Jafar, que estava foragido, posteriormente se apresentou às autoridades, enquanto Heyder Bartz permanece foragido.

A reportagem procurou todas as prefeituras citadas na investigação. Até o momento, apenas Fátima do Sul e Ladário se manifestaram. A Prefeitura de Fátima do Sul informou que não foi oficialmente notificada sobre qualquer investigação relacionada ao caso. Já a Prefeitura de Ladário afirmou que os fatos investigados ocorreram durante a gestão anterior e que a atual administração está colaborando integralmente com as autoridades.

A defesa de Rossana Paroschi Jafar informou que ainda analisa o conteúdo da investigação antes de se pronunciar. A reportagem não conseguiu contato com as defesas de Giovanni Jafar, Rhayane Souza Fanaia e Heyder Bartz. O advogado de Francisco Anizio dos Santos também não respondeu aos pedidos de posicionamento.

As investigações seguem em andamento para identificar todos os envolvidos e dimensionar o prejuízo causado aos cofres públicos.

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